XIX - Isso não é certo! (parte I)
Ouvindo: Norah Jones’ “Those sweet words”
“I just have to hear
Your sweet words
Spoken like a melody
I just wanna hear
Those sweet words”
Bem, pois é. A Evelyn, filha da dona Norma, realmente nos pegou.
Quando eu a vi ali, parada na porta do meu quarto, senti algo difícil de explicar. Sabem quando parece que o chão some debaixo dos nossos pés? Ou quando sonhamos que estamos caindo de uma altura muito grande? Foi o que eu senti. A cara de espanto, de horror dela só piorava tudo. Eu podia ver o queixo dela encostando no chão, mas eu olhava mesmo era para o Pedro. Coitado. Ele tremia, e eu sabia que não era de frio por estar encharcado. Depois de eternos cinco ou seis segundos, a Evelyn deu uns passos para trás, largando a toalha no chão, e desapareceu de vista, indo por onde tinha vindo.
Naquele momento eu vi um filme passando na frente dos meus olhos. Mas não da minha vida que passou, como dizem que acontece com as pessoas que se aproximam da morte. Apesar de, naquela hora, eu ter certeza absoluta de que a morte certa – e dolorosa, depois da tortura – era o que aguardava pelo menos a mim, o que eu vi foi a reação dos meus pais quando recebessem a notícia. Mas, por algum motivo sádico, eu ME vi contando a eles. Me vi dizendo “Pai, mãe, eu sou gay”. A primeira reação da minha mãe, no meu “sonho acordado”, foi sentar-se. A do meu pai, encher o copo de uísque. A segunda reação da minha mãe foi dizer “O quê você está dizendo, moleque??? Não brinque com isso!!!”, e a do meu pai foi dizer “Você não é meu filho! Não criei um viadinho”. E, obviamente, a minha reação foi retrucar, dizendo: “Realmente, vocês não criaram nada, quem me criou foi a empregada”. Ele então viria para cima de mim, e minha mãe assistiria a tudo, chocada demais para impedir que ele me espancasse duplamente – pela revelação e pela resposta. Meu cérebro provavelmente censurou a parte do filme em que eu dizia que, além de ser gay, fazia sexo com o Pedro todos os dias bem ali, no lar-doce-lar deles.
O Pedro. O Pedro estava realmente aterrorizado. Provavelmente passava pela cabeça dele a mesma coisa que pela minha: o que iria nos acontecer quando a Evelyn contasse para a mãe e, depois disso, quando a dona Norma contasse para os nossos pais. Não, era melhor não pensar nisso. Mas não tinha como. Os olhos dele brilhavam, mas agora eu sabia que era de puro medo. Ele ainda estava encostado no armário, e olhava fixamente para a parede. Eu quase podia sentir o cheiro do medo dele, pois eu estava sentindo a mesma coisa. Mas alguma coisa tinha de ser feita. Se nossos pais soubessem, seria o fim – para nós dois. Talvez o fim físico mesmo. Eu não estou brincando. Na verdade não me passava muito bem pela cabeça do que meu pai poderia ser capaz quando soubesse. Eu sabia do que ele NÃO seria capaz: de compreender e de aceitar. E acho que o Pedro pensava no mesmo.
Pô, uma das coisas mais difíceis em se gostar de alguém do mesmo sexo é justamente COMO as outras pessoas vão encarar isso. E não adianta dizer que “a opinião dos outros não importa”, ou “o que importa é ser feliz sendo você mesmo”, ou ainda “não ligue para o que os outros dizem”. É. Falar é fácil. Se você se sustentar e não depender de ninguém, vá lá. Se você não tiver de morar com a família que te rejeita, tudo bem. Se a sua sobrevivência não depende de nada além de você mesmo, do seu esforço, ótimo. Mas imaginem como eu encarava tudo isso, dois anos atrás. Meu, ninguém sabia daquilo. Lembram do armário? Pois é. Eu descobri o armário e não muito tempo depois, o Pedro, dentro de um armário também. Mas descobrir isso, e descobrir que nos amávamos não significou que “saímos do armário”, e sim que passamos a nos esconder no mesmo. Posso até me permitir dizer que foi mais fácil, não porque facilitou a questão de como eu encarava a minha orientação sexual, mas porque tínhamos um ao outro. Pra dizer bem a verdade, nem pensávamos muito se aquilo que fazíamos era certo ou errado – mas agíamos como se fosse errado. Poxa, nós só ficávamos escondido! Como eu queria poder ficar com ele deitado nos meus braços, no sofá da sala, enquanto assistíamos filme com a dona Norma. Como eu queria poder dar um beijo nele quando ele chegava em casa, sem ter de me preocupar com se havia alguém vendo. Como eu queria não ter de correr para o quarto com ele antes de poder abraçá-lo apaixonadamente quando ficava muito tempo sem vê-lo. Mas eu não podia. E, sentado ali na cama, eu pensei: “eu era feliz me escondendo e não sabia”. Porque, se antes tínhamos de fazer tudo longe da vista dos outros, agora nunca mais poderíamos fazer nada. Bastava esperar que a dona Norma contasse aos nossos pais. Se ela ameaçou contar caso nos pegasse “fazendo besteira”, quando achou que estávamos fumando maconha no meu quarto, imaginem o que uma mulher pra quem tudo era “Deus me livre e guarde”, “não fala palavrão que Deus não gosta, garoto”, “Ave Maria Santíssima, valei-me!”, diria quando descobrisse aquilo. Ia ser barra. Eu realmente a adorava. E não queria mesmo causar esse sofrimento a ela.
É claro que eu levei muito menos tempo para pensar isso tudo do que vocês levaram para ler, principalmente porque estava tudo embaralhado, pensamentos se misturando que, de alguma forma, o cérebro conseguiu organizar depois. Deve ter sido o pânico do momento. E a palavra é pânico mesmo. Porque, mesmo considerando a hipótese de a dona Norma não contar para os meus pais nem para os do Pedro, ele não poderia mais ir lá em casa. E na casa dele não poderíamos nos encontrar, a mãe dele estava sempre lá, e, muito pior, o Túlio Henrique. Será que íamos ter de passar o resto da vida – pelo menos enquanto dependêssemos dos nossos pais – tendo que nos beijarmos, abraçarmos, fazer sexo, em banheiros de shoppings, cantos escuros em ruas desertas? Caralho, eu não queria aquilo. Aquilo eu lia em histórias de pessoas que se encontravam só para transarem. Nós éramos namorados! Nos amávamos perdidamente! Eu não queria que tivéssemos de agir como, sei lá, tarados, pervertidos, indecentes, sujos. Ou será que nós éramos exatamente aquilo? Nossos pais certamente diriam que sim. Os meus pelo menos. Acho que o pior seria isso. Que as pessoas nos encarassem como animais. Não, meus pais classificarem o nosso relacionamento de imoral e indecente e sujo seria demais. Eu talvez desse um tiro em cada um. Daria uma de Suzane von Richthofen. Eles casaram-se na igreja, homem e mulher, usavam aliança. Meu pai era um alcoólatra e minha mãe uma perua histérica. Os dois não se falavam a não ser quando na frente da “sociedade”. E o meu relacionamento que era o sujo? Eu não suportaria aquilo.
Por isso precisava fazer alguma coisa. O estado de nervos em que estava o Pedro chegava a ser preocupante. Quando ele estava bravo ou ansioso, falava mais do que o costume. Mas estava imóvel, calado, estático. E isso me deixou preocupado. Levantei-me da cama e fui até ele. Pus a mão no seu rosto e ele então me olhou nos olhos.
- Pa-Patrick!!! A gente ta fudido! Ela vai, ela vai contar! Meu Deus, meu pai me mata, me mata, me mata!!!
“Calma, eu... eu vou tentar falar com a dona Norma... pedir pra ela não contar nada, vou implorar, faço o que ela quiser. Puxa, ela não gosta dos meus pais, me adora, acho que ela vai pelo menos levar isso em consideração, vou tentar fazer ela ver que meus pais vão me destroçar se souberem... ela não vai contar Pedro, não vai...”

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criado por Soubi
20:18:42