Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!

Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!
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Arquivo de: Novembro 2006

28.11.06

XX - Isso não é certo! (parte II)


(continuação do post anterior)

Como eu queria acreditar naquilo que estava dizendo. Mas mesmo assim eu precisava dizer. De nós dois eu sempre fui o mais... racional, digamos. Não que isso seja uma qualidade, muitas vezes é até um defeito. Sempre calculista demais, pensando nos prós e nos contras, pensando nas possibilidades, tentando prever os resultados, as conseqüências de fazer ou não fazer, dizer ou não dizer. Já o Pedro... ele tinha aquele ar meio desligado, sabe? Meio bobo, meio infantil... era absolutamente encantador. Acho que ele enxergava o mundo como um parque de diversões no qual ele tinha bilhetes infinitos. Não que ele não visse o mundo como ele é, mas... acho que sabia que encarar a realidade SEMPRE como ela é nem sempre é favorável. E isso eu estava aprendendo com ele. A ser um pouco menos rígido, um pouco menos... sério. Só que aquele momento exigia seriedade. Não tinha como encarar como nada além da mais pura – e dura – realidade. Tanto é que ele estava aterrorizado, de uma maneira que eu jamais havia visto. Ele tinha caído na real. Nosso mundo mágico onde éramos dois garotos apaixonados um pelo outro veio abaixo. Jogaram um balde d’água gelada. Puxaram o tapete. Então era melhor aproveitar a seriedade do momento.
Eu percebi que ficar tentando tranqüilizá-lo não adiantaria. Então fiz a única coisa que estava ao meu alcance: fui falar com a dona Norma. Saí do quarto, pulando a toalha caída no chão, sentindo o corredor se espremer, tentando me sufocar, mas era só o meu pânico. Cheguei na sala de estar e fui para a sala de jantar, de onde ouvi a voz da Evelyn, vindo da cozinha:
“Mãe, a senhora está prestando atenção??? O que tenho pra lhe dizer é muito sério!”
“Pois fale, filha, claro que estou prestando atenção”.
“Eu fui levar a toalha lá e os dois... o Patrick e o outro garoto estavam...”
“Não me diga que estavam fumando! Ah se eu pego aqueles dois fumando, eles me prometeram que...”
“Não, mãe, não é isso. Eles estavam... se beijando”, disse a Evelyn, baixinho. Na hora eu pensei: ah, vadia filha-da-puta, por que não vai cuidar da vida do peste do seu filho em vez de ficar mexericando na vida dos outros??? Nossa eu fiquei com muita raiva. Apesar de ter certeza de que ela iria contar pra mãe, isso não me impediu de sentir um ódio mortal dela naquele momento. Eu estava encostado na parede que separava a sala de jantar da cozinha, e ouvi as vozes delas através da porta que ligava os dois cômodos, que estava aberta. A Evelyn continuou falando:
“Mãe, a senhora está me ouvindo? Que cara é essa???”
No mesmo instante eu pude imaginar a cara da pobre dona Norma, se contraindo num ataque cardíaco. Caralho, se acontecesse alguma coisa a ela eu nunca ia me perdoar. Nem a filha dela. Mas, pelo tom com que a mais nova continuou falando, ataque cardíaco não era.
“Eu acabei de dizer que vi os dois garotos se beijando e a senhora com essa cara???”
As próximas palavras me acertaram cada uma como uma faca afiada:
“Você acha que eu não sei, minha filha?”
Silêncio. Como assim? Não, eu tinha ouvido errado. A dona Norma não tinha dito aquilo. Minha cabeça girava, tentando entender aquilo tudo. A Evelyn continuou, com a voz alterada:
“Sa-sabia? A senhora sabia???”
“Claro, Evelyn, acha que sua mãe é idiota? Eu criei esse garoto, Evelyn, como criei você e seus irmãos. Acha que eu não saberia uma coisa dessas? Mãe sente, filha. Mãe sente”.
Meu Deus. Eu senti que o meu coração ia explodir pra fora do peito, não, não, não, eu não podia acreditar naquilo!!! Ela sabia! SABIA! Milhões de pensamentos se atropelaram novamente na minha cabeça, afastando o medo de ela contar pros meus pais. Agora tudo o que me vinha à mente era a dona Norma sabendo que eu gostava de um garoto. Que eu namorava um garoto. Que eu beijava um garoto. Que eu... ah minha nossa, que eu transava com um garoto! Ela sabia disso desde quando??? Há quanto tempo ela escondia que sabia de todo??? A resposta não demorou.
“Eu soube desde o começo, filha. Talvez até mesmo antes de os dois saberem que gostavam um do outro”, disse ela, com uma voz calma, gentil.
“Mas mãe! Isso é... isso é errado, mãe! Não é certo! Eles são dois... dois garotos! Têm de namorar garotas!”
“Você escolheu amar o seu marido, filha?”
Caraca! O que era aquilo??? Quem era ela e o que tinha feito com a dona Norma??? Ela estava defendendo o nosso relacionamento! A Evelyn engasgou, mas respondeu:
“Não, mãe, mas...”
“Mas nada, filha. A gente não escolhe quem ama. Pode até escolher com quem fica, mas não quem ama”.
“Eu sei disso mãe, mas isso não é normal, não é certo, é contra Deus! Isso não é amor, mãe!”
Eu acho que o ódio imenso que eu senti dela naquele momento se refletiu na braveza com que a dona Norma respondeu.
“Minha filha! Preste atenção no que você está dizendo! Quem é você pra dizer o que é ou o que não é amor? Seu pai, que Deus o tenha, sempre amou os filhos acima de qualquer coisa. Morreu de tanto trabalhar pra dar pra vocês a melhor vida possível. Eu vim trabalhar aqui porque queria mandar você pra faculdade. Podemos não ter dado tudo o que vocês queriam, filha, mas o nosso amor vocês sempre tiveram. Então não me venha falar do que é ou deixa de ser amor, porque você e seus irmãos nunca souberam, nem nunca vão saber – Graças a Deus – o que é não ter o amor dos pais, da família. O que é nunca ter recebido um abraço do pai ou um beijo da mãe. Eu já te contei as barbaridades que os dois fizeram e fazem com esse garoto. A indiferença, a frieza, tudo. Então não me venha dizer que, pela primeira vez, quando esse garoto finalmente encontrou alguém que o ama como ele sempre quis amar alguém e nunca pôde, ele ta errado. Isso eu não aceito filha. De ninguém, nem mesmo de você”.
Affee. Eu to chorando só de lembrar disso... Quando ela terminou de falar eu chorava compulsivamente. Ela... não apenas sabia, como achava que estávamos certos! Eu achei que não fosse agüentar me levantar, minhas pernas estavam bambas e senti a pressão cair. Alguma coisa retumbava no meu peito, e eu tive que me apoiar na parede pra não desabar no chão. Acho que as duas tinham me ouvindo soluçando, porque, de repente, dei de cara com a dona Norma, com os olhos molhados, sorrindo pra mim. Não sei por quê, nem como, nem quanto tempo levou, só sei que eu dei os passos que faltavam pra vencer a distância que nos separava e a abracei muito, muito forte, e disse:
- ‘Brigado... mãe...
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 20:20:03

XIX - Isso não é certo! (parte I)


Ouvindo: Norah Jones’ “Those sweet words”

“I just have to hear
Your sweet words
Spoken like a melody
I just wanna hear
Those sweet words”


Bem, pois é. A Evelyn, filha da dona Norma, realmente nos pegou.
Quando eu a vi ali, parada na porta do meu quarto, senti algo difícil de explicar. Sabem quando parece que o chão some debaixo dos nossos pés? Ou quando sonhamos que estamos caindo de uma altura muito grande? Foi o que eu senti. A cara de espanto, de horror dela só piorava tudo. Eu podia ver o queixo dela encostando no chão, mas eu olhava mesmo era para o Pedro. Coitado. Ele tremia, e eu sabia que não era de frio por estar encharcado. Depois de eternos cinco ou seis segundos, a Evelyn deu uns passos para trás, largando a toalha no chão, e desapareceu de vista, indo por onde tinha vindo.
Naquele momento eu vi um filme passando na frente dos meus olhos. Mas não da minha vida que passou, como dizem que acontece com as pessoas que se aproximam da morte. Apesar de, naquela hora, eu ter certeza absoluta de que a morte certa – e dolorosa, depois da tortura – era o que aguardava pelo menos a mim, o que eu vi foi a reação dos meus pais quando recebessem a notícia. Mas, por algum motivo sádico, eu ME vi contando a eles. Me vi dizendo “Pai, mãe, eu sou gay”. A primeira reação da minha mãe, no meu “sonho acordado”, foi sentar-se. A do meu pai, encher o copo de uísque. A segunda reação da minha mãe foi dizer “O quê você está dizendo, moleque??? Não brinque com isso!!!”, e a do meu pai foi dizer “Você não é meu filho! Não criei um viadinho”. E, obviamente, a minha reação foi retrucar, dizendo: “Realmente, vocês não criaram nada, quem me criou foi a empregada”. Ele então viria para cima de mim, e minha mãe assistiria a tudo, chocada demais para impedir que ele me espancasse duplamente – pela revelação e pela resposta. Meu cérebro provavelmente censurou a parte do filme em que eu dizia que, além de ser gay, fazia sexo com o Pedro todos os dias bem ali, no lar-doce-lar deles.
O Pedro. O Pedro estava realmente aterrorizado. Provavelmente passava pela cabeça dele a mesma coisa que pela minha: o que iria nos acontecer quando a Evelyn contasse para a mãe e, depois disso, quando a dona Norma contasse para os nossos pais. Não, era melhor não pensar nisso. Mas não tinha como. Os olhos dele brilhavam, mas agora eu sabia que era de puro medo. Ele ainda estava encostado no armário, e olhava fixamente para a parede. Eu quase podia sentir o cheiro do medo dele, pois eu estava sentindo a mesma coisa. Mas alguma coisa tinha de ser feita. Se nossos pais soubessem, seria o fim – para nós dois. Talvez o fim físico mesmo. Eu não estou brincando. Na verdade não me passava muito bem pela cabeça do que meu pai poderia ser capaz quando soubesse. Eu sabia do que ele NÃO seria capaz: de compreender e de aceitar. E acho que o Pedro pensava no mesmo.
Pô, uma das coisas mais difíceis em se gostar de alguém do mesmo sexo é justamente COMO as outras pessoas vão encarar isso. E não adianta dizer que “a opinião dos outros não importa”, ou “o que importa é ser feliz sendo você mesmo”, ou ainda “não ligue para o que os outros dizem”. É. Falar é fácil. Se você se sustentar e não depender de ninguém, vá lá. Se você não tiver de morar com a família que te rejeita, tudo bem. Se a sua sobrevivência não depende de nada além de você mesmo, do seu esforço, ótimo. Mas imaginem como eu encarava tudo isso, dois anos atrás. Meu, ninguém sabia daquilo. Lembram do armário? Pois é. Eu descobri o armário e não muito tempo depois, o Pedro, dentro de um armário também. Mas descobrir isso, e descobrir que nos amávamos não significou que “saímos do armário”, e sim que passamos a nos esconder no mesmo. Posso até me permitir dizer que foi mais fácil, não porque facilitou a questão de como eu encarava a minha orientação sexual, mas porque tínhamos um ao outro. Pra dizer bem a verdade, nem pensávamos muito se aquilo que fazíamos era certo ou errado – mas agíamos como se fosse errado. Poxa, nós só ficávamos escondido! Como eu queria poder ficar com ele deitado nos meus braços, no sofá da sala, enquanto assistíamos filme com a dona Norma. Como eu queria poder dar um beijo nele quando ele chegava em casa, sem ter de me preocupar com se havia alguém vendo. Como eu queria não ter de correr para o quarto com ele antes de poder abraçá-lo apaixonadamente quando ficava muito tempo sem vê-lo. Mas eu não podia. E, sentado ali na cama, eu pensei: “eu era feliz me escondendo e não sabia”. Porque, se antes tínhamos de fazer tudo longe da vista dos outros, agora nunca mais poderíamos fazer nada. Bastava esperar que a dona Norma contasse aos nossos pais. Se ela ameaçou contar caso nos pegasse “fazendo besteira”, quando achou que estávamos fumando maconha no meu quarto, imaginem o que uma mulher pra quem tudo era “Deus me livre e guarde”, “não fala palavrão que Deus não gosta, garoto”, “Ave Maria Santíssima, valei-me!”, diria quando descobrisse aquilo. Ia ser barra. Eu realmente a adorava. E não queria mesmo causar esse sofrimento a ela.
É claro que eu levei muito menos tempo para pensar isso tudo do que vocês levaram para ler, principalmente porque estava tudo embaralhado, pensamentos se misturando que, de alguma forma, o cérebro conseguiu organizar depois. Deve ter sido o pânico do momento. E a palavra é pânico mesmo. Porque, mesmo considerando a hipótese de a dona Norma não contar para os meus pais nem para os do Pedro, ele não poderia mais ir lá em casa. E na casa dele não poderíamos nos encontrar, a mãe dele estava sempre lá, e, muito pior, o Túlio Henrique. Será que íamos ter de passar o resto da vida – pelo menos enquanto dependêssemos dos nossos pais – tendo que nos beijarmos, abraçarmos, fazer sexo, em banheiros de shoppings, cantos escuros em ruas desertas? Caralho, eu não queria aquilo. Aquilo eu lia em histórias de pessoas que se encontravam só para transarem. Nós éramos namorados! Nos amávamos perdidamente! Eu não queria que tivéssemos de agir como, sei lá, tarados, pervertidos, indecentes, sujos. Ou será que nós éramos exatamente aquilo? Nossos pais certamente diriam que sim. Os meus pelo menos. Acho que o pior seria isso. Que as pessoas nos encarassem como animais. Não, meus pais classificarem o nosso relacionamento de imoral e indecente e sujo seria demais. Eu talvez desse um tiro em cada um. Daria uma de Suzane von Richthofen. Eles casaram-se na igreja, homem e mulher, usavam aliança. Meu pai era um alcoólatra e minha mãe uma perua histérica. Os dois não se falavam a não ser quando na frente da “sociedade”. E o meu relacionamento que era o sujo? Eu não suportaria aquilo.
Por isso precisava fazer alguma coisa. O estado de nervos em que estava o Pedro chegava a ser preocupante. Quando ele estava bravo ou ansioso, falava mais do que o costume. Mas estava imóvel, calado, estático. E isso me deixou preocupado. Levantei-me da cama e fui até ele. Pus a mão no seu rosto e ele então me olhou nos olhos.
- Pa-Patrick!!! A gente ta fudido! Ela vai, ela vai contar! Meu Deus, meu pai me mata, me mata, me mata!!!
“Calma, eu... eu vou tentar falar com a dona Norma... pedir pra ela não contar nada, vou implorar, faço o que ela quiser. Puxa, ela não gosta dos meus pais, me adora, acho que ela vai pelo menos levar isso em consideração, vou tentar fazer ela ver que meus pais vão me destroçar se souberem... ela não vai contar Pedro, não vai...”
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 20:18:42

27.11.06

XVIII - Pós-Fudest

E aí, pessoal!
Affeee... sério, desculpem-me por não ter postado, e por ter parado num ponto tão... atiçador, hehe! Não foi a intenção, juro. A maldita Fudest estava me assustando, e, bem... eu deveria ter ficado assustado mesmo.

A prova de matemática, química e física estavam muito, muito difíceis - para mim pelo menos, rs. Mas consegui acertar 65 questões de 90, o que dá uns 72%... talvez eu passe pra segunda fase, mesmo que raspando... vamos ver a nota de corte... do ano passado foi 63, e do anterior 71, então... é esperar pra ver...

Bem, eu passei o dia todo fora de casa hoje, e não pude escrever, mas de amanhã não passa! Prometo!

Mais uma vez, obrigado pelos votos!

=D
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 23:51:04

21.11.06

XVII - E agora José? (parte II)


(continuação do post anterior)

No dia 7, o feriado em si, eu não desgrudei do celular um minuto. A bateria acabou e eu o coloquei pra recarregar, na tomada da escrivaninha. Claro que eu peguei um livro e fiquei lendo ali, na cama, só esperando o celular tocar. Nada. Ele disse que chegaria depois do almoço, e já passava das 2 mais ou menos. 3 da tarde e nada. Começou a formar tempo de chuva, e eu ali, fingindo que lia alguma coisa, quando na verdade eu estava pensando nele o tempo todo. Lá pelas 4 alguém tocou o interfone. Eu voei da cama para a cozinha e atendi, segundos antes da dona Norma colocar as mãos nele. Era a filha dela, Evelyn (nome que eu sempre achei muito bonito) que a tinha vindo visitar. Morava em Franca, aqui perto, se não me engano. Abri o portão e fiquei esperando ali na cozinha enquanto a dona Norma ia até a garagem para recebê-la. Fazia uma cara que eu não a via, e eu sabia o quanto a dona Norma gostava de mostrar pra filha dela "como esse rapaz cresceu!". A filha dela é muito gente boa, tem um muleque que é um capeta (e - hohohoho - quebrou um vaso da minha mãe da última vez que veio em casa, e eu combinei com a dona Norma de dizer que tinha sido eu, porque ela não ia se dar o trabalho de me passar um sermão, comprar outro vaso seria mais barato), que daquela vez (agora vocês imaginam por que, rs) não tinha vindo. Ela eh legal, mas... mas eu tava tão ansioso por notícias do Pedro que não estava com vontade de conversar com ninguém. Mas não ia fazer aquilo né? Fiquei um tempo ali na cozinha, conversando com as duas. Era um tal de "sim, o colégio vai bem", "pois é, primeiro colegial já", "sim, estou gostando", "não, parei de praticar", "não, não estou namorando", e por aí vai. Chamado "conversa mole pra boi dormir". Affe. E ela ainda me lembrando do meu namorado secreto!!! E SUMIDO! Eu estava sem paciência mesmo. Antes que acabasse sendo mal-educado sem motivo algum, decidi sair dali de fininho. As duas começaram a conversar sobre o diabinho e eu pedi "licença que preciso desligar o computador antes que comece a chover". Claro.

O tempo foi ficando cada vez mais fechado e logo começou a chover. Não. Foi um eufemismo. O céu despencou do nada. Um temporal inacreditavelmente foda, não dava pra ver nada, a cortina de água que caía do céu deixou tudo branco. O barulho era absurdo, parecia que estavam tocando tambores dentro de casa. Eu fui pra varanda da área de serviço, que ficava ao lado da garagem, e fiquei sentado na rede, vendo a chuva despencar sobre o jardim e sobre a piscina - que eu havia esquecido de cobrir. A dona Norma ia me matar. Mas então já era. Eu ia ter que passar o aspirador, a peneira e colocar cloro no dia seguinte. ... Puta preguiça. Preguiça aliada à ansiedade. Não mesmo. Eu estava de bermuda e camiseta regata, e havaianas nos pés. Não se esqueçam de que, não importa a chuva que esteja caindo, em Ribeirão está sempre quente. Me deu cinco minutos e eu saltei da rede e atravessei o jardim até chegar na piscina, na chuva mesmo. Não levou 10 segundos pra eu ficar encharcado. Ahhh!!! A sensação da chuva caindo nas costas, nos braços, no rosto... é tão boa... se a dona Norma me visse - e eu corria perigo, porque as janelas da cozinha davam para o jardim - ela me estriparia ("vai pegar um resfriado, moleque! depois eu que tenho que cuidar de você! onde já se viu! quinze anos nas costas e fazendo peraltice!" - sim, mamãe, hehehe), portanto eu tinha de ser rápido. Corri para o outro lado da piscina e puxei o plástico da cobertura até a outra extremidade, e depois fiz o mesmo do outro lado, amarrando as pontas nos ganchinhos do chão. Então, no meio daquela barulheira da chuva, ouvi um barulho diferente. Estava de joelhos no chão de pedra e, quando levantei o olhar, vi o portão se abrindo. Seria possível que aquela louca estava indo embora naquele pé d'água, em vez de esperar diminuir??? A resposta veio a jato, e senti o estômago despencar para os pés quando vi o Pedro e sua bicicleta, parados ali, ensopados dos pés à cabeça.

Larguei o que estava fazendo imediatamente e corri para a garagem, quase levando um tombo na escada. Ele não estava olhando para mim, porque falava com a dona Norma, que estava na janela da cozinha, gritando para ele esperar que ela ia pegar uma toalha. Quando ele me viu (pode ser que tenha sido impressão minha, mas tenho certeza! hehe), seus olhos brilharam. Affeeee!!!! Como eu tive de me conter pra não abraçá-lo ali mesmo! Pra nao enchê-lo de beijos, pra não arrancar a roupa de ele... bem, calma! Ele deixou a bicicleta perto do carro e andou na minha direção, eu tremendo. Abri um sorriso enorme, que ele retribuiu, e com um gesto de cabeça, que ele entendeu, eu disse: "vamos!"

Corremos através da garagem, descemos as escadas e atravessamos o jardim, chegando na varanda da sala. Sem querer saber de nada, eu o puxei pela mão pela sala, nós dois pingando água nos adorados tapetes da minha mãe. Subimos as escadas e fomos pro meu quarto, onde eu o encostei no armário, sem fechar a porta, e nos beijamos loucamente. Parecia que nunca tínhamos experimentado aquilo antes. Nossos corpos estavam molhados, muito molhados, as roupas encharcadas, e a água escorria pela madeira do armário e formava uma pocinha embaixo da gente. Agarrávamos os cabelos um do outro e nos beijávamos como se fosse a última coisa que poderíamos fazer nessa vida. Não tínhamos nem fôlego mais, mas só pararíamos se começássemos a perder os sentidos. Mas não precisou de tanto tempo assim. Num pulo, eu o larguei e caí pra trás, sentado na cama, quando olhei pra porta do quarto, aberta. A Evelyn estava ali, parada, boquiaberta e atônita, com uma toalha nas mãos.
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 00:59:12

XVI - E agora José? (parte I)


* Ouvindo - Edith Piaf's "Tu me fais tourner la tête"

"Tu me fais tourner la tête
Mon manège à moi, c'est toi
Je suis toujours à la fête
Quand tu me tiens dans tes bras"

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Olá! Bem, primeiramente, desculpem por não ter postado atéa gora. Eu realmente não pude! =/ É que domingo que vem tem Fuvest (chamada "FuDest") e já viu né... tô entrando na net só o mínimo necessário à existência digna de qualquer viciado, ehehhe! Bem, vamos lá!

****

Meu, sério, eu realmente não esperava ouvir aquilo do Pedro. Se ele dissesse que estava com vergonha, medo, que estava confuso sobre se gostava daquilo mesmo, tudo bem. Eu entenderia perfeitamente. Mas.. que raio! Eu tinha certeza ABSOLUTA de que ele havia transado com a Júlia naquele dia! Se não transaram, ela certamente deve ter comentado com a Ana Helena, que não me disse nada. Bem... é, tá certo. Há coisas (muitas) que amigas devem guardar só entre si, hehehe...
Enfim! A carinha que ele fez quando me disse que era virgem... dava pra ver todos os capilares da bochecha dele se enchendo de sangue, de tão vermelho que ele ficou! Não resisti o agarrei e deu um puta beijo na boca dele. O único problema foi que, como vocês devem se lembrar, eu estava... bem... "melecado". E é claro que, quando o agarrei no maior abraço, sujei a camiseta dele. Ele teve que usar uma minha depois, foi uma comédia! Imaginem nós dois revirando meu guarda-roupa pra tentar achar uma camiseta parecida com a que ele estava usando, pra dona Norma não perceber que ele havia trocado! E, hohohoho, ela não percebeu!

Foi certamente por pura divina providência que a dona Norma nunca desconfiou de nada. É sério. Nós estávamos abusando da sorte. Já nem trancávamos mais a porta do quarto (não que ela entrasse sem bater, mas vai saber né...), e às vezes (a contragosto do Pedro, é verdade), eu o agarrava nos corredores de casa, na escada que levava pros quartos, até no jardim. Ele morria de medo. Eu também, mas eu não podia resistir. Era impossível não querer passar cada segundo grudado nele. Podem falar que minha opinião é viciada porque eu o amava, mas, além de encantador, inteligente, lindo e engraçado, como era gostosooo!!!! Apesar de ele ser um pouco mais alto que eu, tínhamos mais ou menos o mesmo tipo de corpo, à exceção da cor, é claro... ele era mó "tanned", Garoto de Ipanema, hehe... pegava bronzeado muito fácil (o que em Ribeirão é bem comum, este inferno). Já eu... era mais fácil ficar vermelho que qualquer outra coisa. Branquelo de tudo. Affe... a marquinha na cintura dele me deixava doente!!!

Eu acho que deve acontecer com todo mundo, mas com o Pedro e eu foi assim. Nos dias seguintes à primeira vez que a gente transou (ah, bem, tem gente que não classificaria uma chupada como transa, mas eu sim! E o Pedro, então, certamente, hehehe), foi uma maratona! Nós estávamos em época de aula, e, como vocês sabem, agosto é o pior mês do ano! Como eu o odiava, demorava um zilhão de anos pra passar, porque não tem feriado algum! Mas... naquele ano foi diferente. Naquele ano eu não passava os dias todos sozinhos em casa, ouvindo a dona Norma cantarolar as músicas clássicas que eu apresentei pra ela e ela adorou (vocês conseguem imaginá-la tentando imitar cantores de ópera em italiano e alemão? pois é... hilário...). Naquele ano eu tinha um amigo. Naquele agosto, eu tinha um namorado. E estávamos ambos morrendo de tesão um pelo outro!

Affe! Mais para o meio do mês eu achei que fosse ter uma estafa. Sério, se eu dissesse que ele ia quase todos os dias em casa, seria mentira. Ele ia TODOS os dias. É verdade que eu quase o obrigava, hehehe, mas ele ia! Achei que o coitado também fosse morrer! Nós transávamos todos - TODOS - os dias, mas sempre naquela: sexo oral só, e batíamos um para o outro. Não tínhamos passado daí. Não sei por quê, mas desconfio que estivéssemos os dois com medo. Sei lá, não parecia muito... proporcional, se é que me entendem, hehehe. Se com a porcaria do dedo já doía, imagina com... algo várias vezes mais grosso! Ouch!

Às vezes, olhando-o deitado no meu colo, enquanto escutávamos música no escurinho do quarto ou dentro da sauna, eu pensava no que as pessoas diriam se meramente soubessem o que a gente estava vivendo. Caraca, já pensou se alguém descobrisse tudo aquilo que fazíamos??? Mas... ao lado de toda aquela... "putaria", hehehe, tinha algo muito, muito especial. Vocês já tiveram a sensação de que, só de estar do lado de alguém, o mundo poderia acabar que não faria diferença alguma? Pois é. Com a gente era assim. Tudo em volta perdia o interesse, o brilho, a cor, a atração... porque quando estávamos juntos só conseguíamos - talvez porque só queríamos - ver, sentir e pensar um no outro. Eu adorava ficar deitado na cama, com ele no meu colo, e eu enrolando o dedo nos cabelos ondulados dele... muitas vezes ele ficava mexendo nos meus cabelos também, só que com certeza não tinha a mesma graça com esse monte de fio escorrido q sai da minha cabeça! O dele era tão... kawaii (chamado "lindo" em linguagem de anime, rs)! Eu sentia o sangue ferver quando, olhando pro rostinho dele, ali, deitado no meu colo, ele abria os olhos e me encarava, com um olhar penetrante, carinhoso, carente... era de derrubar qualquer um!

Agosto acabou e, em Setembro, tinha a Semana da Pátria, e caía no começo da semana, segunda ou terça. No meio da semana anterior o Pedro me disse que ia viajar com os pais e o irmão, visitar os avós em Ouro Preto. Ia na sexta e só voltaria no dia do feriado. Eu fiquei arrasado. De verdade. Pra melhorar tudo, meu pai voltou pra casa na sexta-feira, então nós nem pudemos nos despedir direito. Apesar de eu não lembrar da última (se é que existiu alguma) vez que meu pai entrou no meu quarto, fiquei com muito receio de fazer alguma coisa com o velho maldito ali. Se por acaso ele nos pegasse, seria o fim. E não estou sendo exagerado. Nos despedimos com um beijo, um pouco demorado é verdade, mas... só um beijo... e ele foi embora. Tentei me consolar pensando que pelo menos tinha coincidido de o Pedro ir viajar no mesmo período em que meu pai estava em casa, o que evitava alguns problemas. Mas é claro que não ia ser assim, por que eu haveria de pensar que tinha tido sorte? No dia seguinte, bem cedo, meu pai foi pro Rio, e eu passei o feriado prolongado inteiro sem ter um imbecil para culpar por não estar com o Pedro. E a dona Norma cantando Aida. Acho que foi apenas isso que me animou. O italiano macarrônico dela era de matar. De rir, hehe. Maria Callas deveria estar se revirando na tumba, coitada...
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 00:58:25