Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!

Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!
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Arquivo de: Abril 2007

14.04.07

XXXIV___O_poço_tem_fundo?__pt_II

*continuação do post anterior
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Ainda que não me arrependesse de ter enchido a cara, como eu lamentava profundamente ter preocupado e decepcionado a dona Norma, eu decidi dar um tempo. Pelo jeito eu havia passado o numero do meu celular para o “Nada”, porque, dois dias depois do vexame, ele me ligou, me chamando pra sair de novo com eles. Mas, como eu estava resolvido a não repetir o que havia acontecido, disse que não ia poder, dei uma desculpa qualquer. Mas anotei o celular dele na agenda do meu.
*
Em vez disso, fui tentar arrumar o que fazer pra me distrair. Joguei uns jogos no vídeo-game, escutei música, reli alguns trechos dos livros que eu mais gostava... e, é óbvio, aquilo logo se tornou chatíssimo. Joguei tudo – livros, controle do vídeo-game e do aparelho de som – do lado da cama, fechei a janela do quarto e enfiei a cara no travesseiro. Eu sabia muito bem o que eu queria... do que estava sentindo falta...
*
Por mais que eu tentasse desesperadamente, não conseguia me acostumar à falta dos braços do Pedro em volta de mim... de sentir a respiração dele no meu ouvido, quando dormíamos agarrados ali mesmo, naquela cama... era tão desesperador abrir o MSN e saber que ele não ficaria online, dava tanta angústia olhar pra piscina e ter a sensação de que faltava nela aquele garoto lindo, com aquele sorriso brilhante, chacoalhando os cabelos pra jogar água no meu rosto... ou então entrar no banheiro e ver só uma toalha pendurada, e o lugar da toalha que ele usava, vazio... a escova de dentes dele, na qual eu não tive coragem de tocar desde que ele fora embora, ali na prateleira do armário, sobre a pia... quando eu me dei conta, já estava chorando compulsivamente de novo. Aquela dor indescritível que dilacera o peito, que parece espantar qualquer pensamento feliz... tudo voltava, as lembranças de nós dois juntos, o sorriso dele, o cheiro dele, o beijo dele... quanto mais eu tentava afastar aquelas lembranças, com mais força elas me invadiam e me machucavam. “Tu foste pra mim, meu amor, como um dia de sol”, dizia a música que ele me mandara... eu já não sabia o que era o sol há algum tempo. E aquilo doía demais.
*
Doía tanto que eu já estava com raiva de mim mesmo por não estar conseguindo esquecê-lo de vez. Ele deixara bem claro “como foi lindo o que morreu”. Morreu. Ele não sentia mais nada por mim, se ele tinha conseguido me esquecer assim com tanta facilidade... por que eu não poderia? É, estava mais do que na hora de eu partir pra outra, dar um rumo na vida... eu ficava dizendo pra mim mesmo que o Pedro não apenas estava longe, muito longe, mas também que ele não me amava mais. E, se ele não sentia mais nada por mim, não haveria um único motivo pra eu ficar chorando por ele. E foi assim que eu tive uma idéia da qual eu ia, depois, me arrepender muito, mas muito mesmo.
*
Levantei da cama esfregando o nariz, liguei o computador e entrei no site do Bate-papo do UOL. Não demorou muito pra eu descobrir as salas de Ribeirão. Eu nunca havia entrado nelas, sempre que entrava no bate-papo – o que significa “quase nunca” – era nas salas “por idade”. Mas quando entrei numa das salas de Ribeirão, com o meu nome de nickname mesmo, não demorou nada pra duas ou três pessoas saltarem na tela, perguntando “quer tc?”, ou “e ai, blz? Afim de tc???”. E duas delas tinham nick de homens. Eu saí imediatamente da sala, nervoso. Nossa, eu estava realmente fazendo aquilo. Tentando conhecer alguém pela Internet. Eu tinha idéia das complicações que isso pode trazer, mas... troquei o apelido, inventando um nome qualquer, e voltei a entrar na mesma sala. Claro que novamente pessoas vieram falar comigo. Mas dessa vez eu respondi.
*
Era muito estranho. Eu nunca havia feito aquilo antes, quero dizer, entrar na Internet para conversar com outros garotos para... bem, para buscar alguém pra conhecer. Eu só entrava pra bater papo mesmo, jogar conversa fora com pessoas desconhecidas, mas nunca passava disso. Mas naquele dia foi diferente. Eram garotos que, como eu, gostavam de garotos. Morávamos na mesma cidade. Meu deus, e se eu encontrasse alguém do meu colégio ali??? Ao pensar nisso, eu quase desisti de novo. Mas, quando ia clicar no botão pra sair da sala, apareceu uma mensagem de um cara com o nick de "cara_legal", ou "maneiro", algo assim. Perguntando se eu estava ocupado. Eu larguei o mouse e digitei: “não to não...”.
*
E assim nós começamos a conversar. Ele tinha um papo legal, e morava longe da minha casa, o que era um bom sinal. Mas a conversa foi avançando, ele perguntando o que eu procurava na net, eu dizendo que não sabia ainda, que nunca tinha conhecido ninguém da net, e tal. Então ele perguntou a minha idade e, quando eu disse que tinha 15 anos, ele saiu da sala. Eu fiquei lá, com cara de besta, olhando pro monitor. Supus que ele fosse bem mais velho, pra simplesmente fugir da sala quando eu disse que tinha 15 anos. Então eu também saí da sala e entrei em outra, mudando o nick de novo, mas dessa vez colocando nele: “15a" na frente do nome, assim pelo menos quem viesse conversar comigo já saberia. Então, assim que entrei na sala, vi um nick interessante: “garoto carente”. Cliquei nele e perguntei se ele queria conversar, e ele disse que sim. E foi por causa desse “sim” que tudo aconteceu...
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 17:42:26

XXXIV___O_poço_tem_fundo?__pt_I

*Ouvindo: Lifehouse's "Chapter One”.
*
“All the leaves are turning and the sky fades to gray
Strange our life coincides with the seasons of today
Who's to say where the wind will blow
What happens when everything is lying on the ground
Do you pick up the pieces all around
And if the world should fall apart hold on to what you know
Take your chances turn around and go
Carry on you say
Bring the best of today
All I see is struggling on the way”.
*
*
*
Vocês já tiveram a sensação de estarem numa daquelas cenas de desenho animado em que aparecem um diabinho e um anjinho, um de cada lado da sua cabeça, falando coisas diferentes no seu ouvido? Dando conselhos absolutamente opostos? Pois é. Foi assim que eu me senti nas semanas seguintes ao vexame com a dona Norma. Que vergonha, deus.
*
Eu cheguei em casa cedo naquele dia em que saí da festa com os caras mais velhos. Cedo mesmo: passava das cinco e meia da manhã. A dona Norma estava na cozinha, e correu abrir a porta que dá pra área de serviço quando ouviu o portão se abrindo. Quando eu cheguei perto o suficiente pra ela me encarar, ela disparou, afobada:
- Meu Deus garoto! Aonde você tava??? Eu aqui morrendo de preocupação, liguei no seu celular não-sei-quantas-mil vezes!!! Patrick! Que cheiro é esse?? – ela perguntou, quase me chacoalhando.
“Não é nada... vô pro quarto...”
*
Eu estava bêbado. Bastante bêbado. Mas ainda andava (bastante torto, é verdade) e até conseguia entender boa parte do que ela falava. Mas sabem quando você pensa as palavras mais rápido do que pode dizê-las? Então. E olhem que eu estava pensando bem lentamente, o que significa que a dona Norma ficou muito assustada. Eu tenho certeza de que entendi o que ela disse porque, depois de acordar, naquela tarde, com um cheiro horrível de álcool no quarto, eu me lembrei de tudo o que ela disse. Mas acho que na hora em que ela disse eu não tinha condições de responder nada. E ela deve ter percebido isso, porque me levou à força pro meu quarto – e digo à força não porque eu estivesse voluntariamente resistindo, eu queria ir pra lá, só que não conseguia sozinho, principalmente devido aos móveis que pareciam se jogar no meio do caminho. Ela me sentou na cama e foi pro banheiro, e, segundos depois, fui arrastado para o chuveiro. A dona Norma arrancou minha roupa, me deixando só de cuecas, e me tacou debaixo d’água fria. Santo deus, que sensação horrível! Parecia que eu estava acordando, aterrorizado, de um pesadelo alucinante. Principalmente porque eu tenho um problema com muita água caindo sobre a minha cabeça. Não consigo ficar debaixo de cachoeiras, por exemplo. Me dá falta de ar, desespero, enfim, eu geralmente fico com a cabeça abaixada enquanto tomo banho, deixando a água cair no pescoço, não sobre a cabeça. Então, com a água gelada, ainda por cima, pareceu que eu estava levando um choque. Tentei desligar o chuveiro, mas a dona Norma não deixou. Ficou segurando meus braços, enquanto falava coisas como “onde já se viu!”, “não é nenhuma criança”, “me mata de preocupação”, “sem juízo algum!”. Confesso que, na hora, eu não estava ligando muito. Mas...
*
*
Quando abri os olhos, eles demoraram pra entrar em foco. Vi tudo quadruplicado, triplicado, duplicado, e enfim tudo se acertou. Minha boca estava sequíssima, como se eu tivesse comido um saco de areia. Não que eu já tenha comido um saco de areia, mas imagino que a sensação deva ser parecida. Olhei pro relógio: quatro e meia da tarde, o que significava que eu tinha dormido por quase doze horas. O cheiro de álcool no quarto era absurdamente insuportável. A janela estava fechada, fazia um calor horrível. Eu me levantei rapidamente, e caí sentado na cama porque me deu tontura. Até que fazia sentido, já que há muito tempo que eu não comia nada. Em vez de tentar me levantar novamente, fiquei lá, com a cabeça apoiada nas mãos, e os cotovelos apoiados nos joelhos, tentando me lembrar do máximo possível. E o pior é que eu consegui.
*
Enquanto falava algumas frases aparentemente sem muita conexão umas com as outras, a dona Norma quase chorava. E, de uma maneira um pouco egoísta, eu desejei que fosse de preocupação, e não de decepção, porque decepcioná-la seria devastador pra mim. Logo ela, que já tinha me dado tanto apoio... deus do céu, ela me ajudou a enganar os pais do Pedro, pra que ele pudesse viajar comigo... ela até foi conosco, porque senão não poderíamos ir... isso sem falar na maneira como ela criticou a filha, me defendendo, e defendendo o que eu sentia pelo Pedro... e era assim que eu retribuía. Não que eu achasse que ela esperava alguma coisa em troca do que ela havia feito por mim a vida inteira, porque as mães nunca esperam nada em troca... mas esse era um consolo muito fraco, e eu continuava sem coragem de sair do quarto e arriscar encará-la.
*
Por fim me levantei e abri a janela, tirei a roupa de cama e coloquei lençóis limpos, e fui escovar os dentes – três vezes seguidas. Liguei o aparelho de som e coloquei um cd da Enya e deixei lá, tocando bem baixinho. Sentado na cadeira do computador, continuava buscando coragem pra sair do quarto. Mas não foi preciso. Em alguns minutos ela bateu na porta, três vezes, antes de eu conseguir dizer:
“Entre”.
- Boa tarde. Tá melhor?
Eu não sabia se ela estava me olhando ou não, porque não tive coragem de encará-la. Só balancei a cabeça afirmativamente. Ela continuou:
- Trouxe um lanche pra você. Come senão desmaia de fraqueza.
Balancei a cabeça de novo e ela colocou a bandeja sobre o baú que ficava no pé da cama. Antes de sair do quarto, ela disse:
- Isso acontece com todo mundo, Patrick. Só que a gente fica numa preocupação danada! Tem que tomar cuidado pra não fazer mal pra você mesmo. E essas coisas fazem mal. Não to dizendo que não é pra você se divertir, só pra ter cuidado e a cabeça no lugar – e saiu, fazendo com que eu me sentisse pior ainda.
*
Naquele dia, e no dia seguinte, a dona Norma fez de tudo pra eu achar que estava tudo bem, mas eu percebi que não estava. Ela estava preocupada. Aquela situação nunca tinha existido entre a gente. Depois de ela ter me defendido, quando a Evelyn me viu com o Pedro no meu quarto, aquela foi a segunda vez em que agiu como uma genuína mãe, protetora, enfim, mãe. E logo na segunda vez, eu agia como um filho-problema. Deus, eu nunca fora um filho-problema pros imbecis dos meus pais, que certamente mereceriam todo tipo de problemas com o filho, mas fui ser um problema logo com a dona Norma. A única pessoa que se importava comigo...
*
E então voltamos ao começo do post. O diabinho e o anjinho. Eu tinha certeza que havia dado mancada. Sabia disso, e estava genuinamente arrependido de ter preocupado a dona Norma. Mas... por outro lado, não me arrependia do que tinha feito, por algum motivo. Quero dizer, não me arrependia de ter enchido a cara, de ter fumado, de ter saído de carro com caras mais velhos e completamente irresponsáveis. Meu remorso se resumia no que eu fiz à dona Norma, mas se ela não tivesse me visto chegar, se eu tivesse chegado bem, então... não haveria remorso algum. Por algum motivo.
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 17:36:50

03.04.07

XXXIII_Um_novo_dia_parte_II

*continuação do post anterior

Enquanto eu tomava banho, fiquei pensando se aquilo seria uma boa idéia. Ir a uma festa onde estariam justamente o povo do colégio que não gostava de mim. Bem, eles não gostavam de muita gente, é verdade, mas eu me incluía nesse grupo privilegiado. Eu provavelmente seria harassed, importunado, zoado, “melindrado”. Mas... saber? Que se fodesse. Eu ia e acabou. Quem quisesse se sentir incomodado com isso, nossa, eu não ia dormir ontem de tanto lamentar. E às nove e pouco a tal da Marília me ligou, combinando de me pegar em casa mesmo. O irmão da Luísa tinha uma cara de quem estava profundamente irritado por ter de servir de motorista à irmã e aos amigos pivetes. Ele devia ter uns vinte e poucos anos, e era bem bonito. Nem olhou pra minha cara direito, simplesmente acelerou depois de eu entrar no carro.

A chácara do tal Luis Guilherme era um pouco longe da cidade, quer dizer, da parte habitada da cidade. Ficava perto de uma das usinas de cana, e quando chegamos já havia bastante gente lá. Muitas caras conhecidas, do colégio, e algumas que eu nunca havia visto antes, provavelmente de outras escolas. A Marília estava dizendo que haviam sido vendidos mais de trezentos convites para a festa. Um guri imbecil de 16 anos fazendo festa para 300 pessoas. Um promoter com futuro promissor, sem dúvida e quase sem ironia.

O pior de tudo é que eu não poderia falar mal da festa. Ela estava realmente boa. Música legal, iluminação da hora... refrigerante à vontade, e, é claro, alguém deu um jeito de contrabandear bebida pra dentro da chácara. E, por algum motivo, desconfio que tivesse sido o próprio dono da festa, pois era a TTH – Turma do Túlio Henrique – que estava enchendo a cara. Aliás, falando em Túlio Henrique... já passava das dez da noite quando, pelo jeito, ele não se controlou mais. Eu já havia percebido que ele estava olhando para mim desde que eu chegara. Com certeza fez algum comentário com os amigos, pois eles também olharam pra mim e riram. Mas, até então, era só isso. E, sendo ele quem era, não perderia a oportunidade, é claro. Eu tomava Coca-cola quando ele chegou perto de mim com quatro dos seus “capangas”.
- Olha só quem já esqueceu o “amigo”... -, disse ele, enfatizando muito o “amigo”.
Eu fingi que não ouvi e dei as costas pra eles, indo pra outro canto da chácara. Então ouvi atrás de mim:
- Faz bem em ir pra festas, porque o meu irmãozinho querido está se divertindo pacas lá no Canadá. Sabe como é, ele sempre foi o mais... insensível.

Eu não ia dar trela, não podia. Era justamente o que ele vinha querendo desde que eu me mudei para o COC, e, mais que isso, depois que eu me tornei o melhor amigo do irmão dele. Um motivo para juntar um bando e me bater. Seria muita burrice aceitar a provocação, por mais que eu quisesse. Continuei andando e não olhei para trás, apesar de eles continuarem me azucrinando, aos berros.

“O meu irmãozinho querido está se divertindo pacas lá no Canadá”... aquilo não devia me afetar, afinal eu já havia esquecido o Pedro. Então... por que, mesmo eu sabendo que o Túlio provavelmente só dissera aquilo para me provocar, doía tanto? Por que eu ficava pensando nele, numa festa como aquela, só que cheia de canadenses gatinhos que estavam fazendo fila pra “experimentar” o meu namorado. EX-namorado... Droga...

Vejam como são as coisas, como parece que elas acontecem de propósito, e não por acaso. Eu havia acabado de me sentar num banco sob uma árvore, um pouco longe de onde a festa rolava mesmo, quando ouvi umas vozes. Olhei para os lados e vi três garotos mais velhos, deviam ter dezoito ou dezenove anos. Estavam bebendo e fumando. Escondido. Então eles perceberam que eu estava ali, e um deles disse, meio bêbado:
- Ei, quem é você?
“Ninguém, cara, já to voltando pra festa. Foi mal atrapalhar aí”, eu respondi, já levantando do banco. Então, surpreendentemente, a mesma voz disse:
- Não, chega mais aí.
Eu hesitei um pouco, e ele insistiu:
- Chega aí, mano. De boa.
Quando me aproximei o suficiente pra poder distinguir os rostos e, principalmente, o que havia nas mãos deles, o mesmo ara disse:
- Beleza cara? Senta aí. Dá um copo pro moleque aí, Bola. Saca só, eu sou o Nada, esse com os copos é o Bola e esse malacabado aqui é o Digão. Galera gente boa.

É, eu podia notar. Estavam os três quase bêbados, com duas garrafas de vodka quase secas, e uns maços de cigarros, todos abertos, no chão. O tal do “Nada” (tirando o “Nada”, de quem eu me lembro muito bem, os apelidos dos outros dois eu inventei, porque também não me lembro) pegou um copo vazio da mão do Bola, encheu até a metade com vodka e me entregou. Eu fiquei um tempo olhando pro copo. Meu, quem é que toma vodka pura e quente? Nem russo faz isso!
- Vai, mano, bebe aí. É vodka boa!

Acho que aquele foi um momento decisivo no que seria minha vida nas semanas seguintes. Eu poderia ter largado o copo ali e ido embora, mas, por um desses motivos que a gente nunca chega a descobrir de verdade, eu virei a porcaria, e achei que minha garganta fosse derreter. Meu Deus, como aquilo era ruim! Senti o estômago embrulhar na hora, e mal ouvi os três “me cumprimentando” por ter virado meio copo de vodka. Claro que o Nada tornou a pôr mais bebida no copo que eu acabara de esvaziar.

Eu me lembro que até cheguei a pensar que não havia motivo pra eu fazer aquilo, mas não me censurei muito. Antes de começar a beber o segundo copo, eu estava com um cigarro aceso na mão. E, sob os aplausos dos meus três “novos amigos”, o fumei inteiro antes de terminar de beber a vodka.

O que aconteceu depois de eu beber o segundo copo de vodka não ficou muito bem gravado na minha cabeça, por motivos óbvios. Me lembro de coisas esparsas, flashes, momentos. Lembro que eu saí da festa de carro com os três. Lembro que mandei uma mensagem no celular da Marília, dizendo que estava indo embora com uns amigos. Lembro que fumei e bebi mais, mas não lembro o quanto. De pelo menos um cavalo-de-pau na avenida Francisco Junqueira, perto do Corpo de Bombeiros. E, apesar de depois ter querido desesperadamente esquecer, lembro da cara da Dona Norma (que me esperava aflita na cozinha), de decepção, quando eu cheguei em casa, com o dia clareando, bêbado e cheirando a cigarro.
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 13:10:27

XXXIII_Um_novo_dia_parte_I

*Ouvindo: Nickelback’s “Savin’ me”.

“Show me what it's like
To be the last one standing
And teach me wrong from right
And I'll show you what I can be
And say it for me
Say it to me
And I'll leave this life behind me
Say it if it's worth savin' me”


Pensando melhor, agora, se existe o inferno, e não é o que vivemos todo dia, certamente foi aquilo pelo que eu passei nos meses seguintes à partida do Pedro para o Canadá. Dizem que "aquilo que não me mata me fortalece", não é mesmo? Pois naquela época eu não pensava assim. Logo que ele se foi parecia, sim, que aquela dor ia me matar. Mas depois... passou. Acho que o meu cérebro simplesmente bloqueou o Pedro por um tempo, talvez como um meio de auto-defesa. Eu já não pensava mais nele, e, pra ser bem sincero, não pensava em mais coisa alguma. Parecia que eu tinha um vácuo dentro da cabeça, e nada mais tinha muita importância.

As aulas acabaram em Dezembro, eu fiz os testes e fiquei em Matemática, mas por muito pouco, e consegui recuperar no exame. Eu já estava de saco cheio de ir à escola, queria apenas ficar quieto no meu canto. Mas eu estava fazendo um esforço pra dona Norma não ficar muito preocupada comigo. Eu disse a ela que o Pedro e eu havíamos terminado, só por um tempo, enquanto ele estava no Canadá. Não podia contar toda a verdade pra ela. Não podia dizer que o Pedro tinha estraçalhado meu coração, porque o que eu sofri com isso já havia sido suficiente, não estava afim de sofrer por vê-la também chateada com isso tudo. Seria desnecessário, afinal... afinal já havia passado e acabado mesmo.

Pelo menos no começo das férias eu ficava o dia todo em casa, no video-game, no PC, na piscina ou sentado na cama, ouvindo música. Mas é claro que logo os jogos acabaram, as músicas começaram a se repetir e eu já criava aversão à água. Sem falar, é claro, que eu fazia tudo isso sozinho. E desconfio que, por mais traumático que seja o fim de um relacionamento, e por mais que nós queiramos distância do mundo por algum tempo, vamos invariavelmente, mais dia menos dia, sentir falta nem que seja de estar em meio a outras pessoas. E no fim de Dezembro eu senti isso. Comecei a sair um pouco de casa. Ia ao shopping Santa Úrsula pra ver filme, ao clube jogar tênis, enfim, simplesmente pra não ficar em casa. E foi aí que começou.

Era uma terça-feira, e eu estava no Regatas, o clube onde ia jogar tênis, na quadra coberta, esperando dois caras terminarem o jogo. O lugar estava cheio, na maior parte de pessoas da minha idade, entre uns 14 e 18, mais ou menos (afinal era no meio da semana). Tinha uma galera com raquetes, esperando pra poder jogar, e algumas pessoas que aparentemente só tinham ido assistir aos jogos. Eu lá, sentado de boa, com a minha raquete nas costas, quando chegou um garoto perto. Ele devia ser da minha idade, talvez pouca coisa mais nova, tinha cara de bobo, cabelo meio compridinho (marrom com umas mechas loiras), de olhos escuros. Acho que hoje ele seria um emo, mas não era moda ainda dois anos atrás. Enfim. Ele chegou perto e, quando eu olhei pra ele, ele disse, parado de pé na minha frente: "E aí, tudo certo?"

Ele tinha a voz e o jeito meio femininos, e eu pensei: "o que esse cara quer?" Então entendi. Assim que eu respondi, com um "tudo beleza, e contigo?", ele olhou para trás - coisa que aparentemente não devia ter feito. Havia 2 garotas lá do outro lado da quadra, que quase se jogaram atrás da muretinha de madeira pra se esconderem. Usaram o pobre garoto pra vir falar comigo. Como ele ficou vermelho de vergonha, talvez pensando que tinha "estragado tudo", eu dei corda, e disse:
“Quem são as suas amigas?”
Completamente sem graça, e atropelando as palavras, ele respondeu:
- Minhas amigas.
Pensando bem, fez sentido a resposta. Eu que fiz a pergunta errada. Então tentei de novo:
“Mas por que elas te mandaram aqui?”
- Sei lá... querem conversar com você".

Eu notei que elas ainda olhavam na nossa direção, então me levantei e comecei a andar até o lugar onde elas estavam. E, é claro, elas tentaram disfarçar das piores maneiras possíveis. Ambas tinham cabelos escuros, mas uma delas havia, sem muito sucesso, tentado fazer mechas vermelhas no seu – mechas que já estavam desbotando. Parecia um mico-leão. Elas deviam ser da minha idade, senão pouca coisa mais novas. E estavam morrendo de vergonha.
Quando eu finalmente cheguei até elas, com o garoto vindo atrás de mim, as cumprimentei com um aceno de cabeça e disse: “Oi. Meu nome é Patrick. Vocês queriam falar comigo?”

Absolutamente desconcertadas, as duas gaguejaram e ficaram uma olhando pra outra, coisa que, confesso, me irritou profundamente. Puta que pariu, se elas queriam falar algo, que desembuchassem! Mas hoje percebo que, à época, eu estava transtornado demais pra perceber que a atitude delas era bastante razoável. Eu que estava impaciente demais, deveria ter sido um pouco mais condescendente. De qualquer modo, por fim, vencendo a timidez, a mais baixa delas disse (eu não lembro o nome delas, então vou colocar qualquer um):
- Eu sou a Marília. Esta é a Luísa, e esse é o Gustavo. Nós também estudamos no COC, só que somos da sétima série.. Você estava no 1º Colegial né?
“Sim”, respondi. “Pensando melhor, acho que já vi vocês lá no Colégio”, menti. Eu realmente não lembrava deles. “Mas o que vocês queriam me falar mesmo?”
- Vai ter uma festa hoje na chácara do Luis Guilherme, do segundo colegial, você conhece?
Luis Guilherme. Um dos imbecis que andavam com o Túlio Henrique e, apesar de serem mais velhos que ele, babavam ovo para o bacanão.
“Conheço.”
- Então, você quer ir? – perguntou a tal Marília. Os outros dois pareciam dois vasos de samambaia, imóveis e mudos.

Apesar de ter cogitado seriamente responder “não”, afinal era na chácara do Luis Guilherme – um dos garotos que me zoaram muito quando eu me mudei para o COC – disse que sim. E desconfio que foi pelo mesmo motivo – o de ter sido zoado. E, além disso, uma festa provavelmente fosse me fazer bem.
“Precisa de ingresso?”, eu perguntei.
- Dá pra ele – comandou a Marília ao tal do Gustavo, que meteu a mão no bolso da calça e me entregou um pedaço de papel, no qual, num dos lados, estava impresso o nome e a data da festa, e no outro, um pequeno mapa de como chegar à chácara.
“Quanto é?”, perguntei.
- Nada. É de presente.
Apesar de achar aquilo tudo muito estranho, decidi não argumentar. Simplesmente agradeci, e a Marília disse:
- Você tem com quem ir?
“Eu... não.”
- Quer ir com a gente? Vamos sair da casa da Luísa, o irmão dela vai nos levar.
“Beleza. Como eu faço?”
- Me passa seu celular, que eu te ligo e nós combinamos. Te pegamos em algum lugar, na sua casa, no Shopping, sei lá.

Eu dei a ela o número do meu celular e ela me passou o dela. Então olhei no relógio e vi que já passava das seis da tarde. Hora de ir embora, a dona Norma estava indo me pegar. E a festa começava dali a três horas.
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 13:05:26

XXXII_I_am_so_sorry



Bom dia, pessoal... 3 e 34 da manhã aqui em... ops. Já já.

Sei que faz mais de 4 semans que eu não posto, e queria pedir milhões de desculpas por isso. Estou me sentindo horrível de verdade. Mas... logo vocês vão entender o porquê. Aconteceram um zilhão de coisas na minha vida, e eu vou contar cada uma delas.

Daqui a pouquinho já vou postar a continuação do último post. E, mais uma vez... me desculpem. Além disso, muito, muito obrigado pelos comentários de incentivo, pelos e-mails enoooormes que algumas pessoas mandaram, desejando felicidade, mandando abraços e até mesmo me ameaçando para que eu postasse novamente, hehehe. Eu sei que dei mancada, mas espero que vocês possam entender em breve o porquê. Um grande abraço pra todo mundo, vocês sabe o quanto são importantes pra mim.

Aliás... eu recriei o meu Orkut. Aí vai:

http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=11730451157067821204

;) até mais, pessoal!
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 04:01:10