15.01.07
XXIX_Pois_e...
* Ouvindo: Elis Regina's "Pois é"
"Pois é
Fica o dito e redito por não dito
E é difícil dizer qu'inda é bonito
Cantar o que me restou de ti
Daí
Nosso mais que perfeito está desfeito
E o que me parecia tão direito
Caiu desse jeito sem perdão
E então
Disfarçar minha dor já não consigo
Dizer que nós somos bons amigos
É muita mentira para mim
E enfim
Hoje na solidão ainda custo a entender
Como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação
Pois é, então"
Como eu disse, a viagem com o Pedro foi... fantástica. Não consigo me lembrar, antes disso, de um momento em que eu estievsse tão feliz. Nem ele. O Pedro, que é tão reservado, tão sério... naqueles dias estava todo sorrisos, e aquele sorriso lindo, que de tão raro e radiante é tão precioso...
Mas alguém já disse que o que é bom dura pouco. Bem, alguns dias depois de voltarmos pra Ribeirão eu cheguei à mesma conclusão.
Do nada, assim, de uma hora pra outra, o Pedro sumiu. Eu ligava no celular dele e ele não atendia. Ligava na casa e ele nunca estava. Faltou por três dias seguidos à escola. E ainda assim, quando voltou, me evitava o tempo todo. Mudou-se para a outra sala - sim, a do Túlio. Que diabos estava acontecendo? Havíamos acabado de voltar da melhor viagem que já havíamos - bem, que EU havia, pelo menos - feito na vida, e ele agora me ignorava como se não me conhecesse! Mandei dezenas de mensagens pra ele, no celular, MSN, por e-mail... e nada. Ele não respondeu uma sequer.
Sabem quanto tempo ficou nisso? Duas, DUAS SEMANAS! Outubro foi para o limbo e o Pedro não falava comigo. Eu estava entrando em depressão, primeiro porque não o tinha mais ao meu lado, e segundo porque não sabia se era por alguma coisa que eu havia feito! Não conseguia dormir direito, muito menos estudar. A dona Norma me perguntou por que ele não ia mais em casa, e tudo o que eu dizia era: "ele tá ocupado ultimamente", e aquilo doía em mim como um ferro em brasa na pele. Eu não pensava em mais nada, ficava o dia todo trancado no quarto, chorando e tentando descobrir um motivo praquilo tudo.
Em Novembro, finalmente, eu não aguentei mais. Aquilo me corroía, e eu não estava suportando a dor. Um dia no intervalo, fui até nova sala dele e o peguei pelo braço.
"Pedro, eu preciso falar com você."
A reposta dele foi simplesmente ficar mudo e olhar para o chão. Eu baixei a voz e disse bem perto do rosto dele:
"Escuta, o que tá acontecendo??? Faz quase três semanas que você não fala comigo! Puta merda, o que foi que eu te fiz? Fala, que eu tento consertar, e..."
- Você não fez nada. - ele respondeu, rapidamente.
"Então o que foi??"
Ele se levantou e saiu da sala, e eu o segui. Fomos pra sala de estudo - ironicamente a mesma na qual havíamos nos conhecido. Entramos e eu fechei a porta atrás de mim.
"Pedro, é sério... cara, você não tem idéia do que eu tô passando esses tempos... não passa um maldito dia sem eu chorar, porque você não tá ali, e porque não sei se é por culpa minha!"
Ele me encarou com os olhos úmidos, e me disse, com a voz meio trêmula:
- Não é culpa sua... eu também tô sofrendo... Patrick... meus pais, eles... estão desconfiados, eu acho que sabem de tudo...
Senti, naquele minuto, o chão desaparecer de sob os meus pés. Não era possível. COMO??? Como eles haviam desconf... bem... pensando melhor... o Pedro não saía da minha casa, dormia lá várias vezes por semana... ficava comigo o tempo todo no colégio e fora dele... não tinha namorada, e nem eu... nós éramos a única companhia um do outro. Não era porque os meus pais não prestavam atenção em mim que os dele não iam perceber aquele comportamento... incomum. Sermos amigos era uma coisa, mas parecíamos gêmeos siameses!
"Pe-Pedro... como assim, eles te disseram algou ou você está desconfiado que eles..."
- Não... meus pais me chamaram na cozinha, no dia seguinte que chegamos de Goiás, pra termos uma "conversa", e... e o meu pai disse que não estava gostando nem um pouco de ver que nós não nos desgrudávamos, e que não queria nem pensar em nada além disso... e mandou eu me afastar de você, senão ele ia falar com os seus pais...
A sensação de um forte soco no estômago me acertou novamente. A respiração até falhou. Os pais dele tinham descoberto. Claro, claro, eles sabiam! Se só pensassem que havia algo além de amizade entre nós dois, não teriam mandado ele se afastar de mim! Não teriam praticamente chantageado o garoto! Puta que pariu... o que ia ser, então??? Eu simplesmente não conseguia pensar em nada racionalmente, na verdade nao conseguia pensar em coisa nenhuma. Quando percebi, o Pedro estava falando de novo.
- Eu não podia deixar eles falerem com os seus pais, Patrick! Teu pai te mataria! Desculpe não ter dito nada, é que eu fiquei com tanto medo de, sei lá, você ir lá em casa e tentar falar com eles se eu te contasse o que eles tinham dito... ia ser muito pior!
Eu comecei a chorar. Ele... tinha se afastado de mim, mas tinha feito isso por medo de eu ter problemas com os meus pais... atravessei o espaço que nos separava e abracei-o com força. Ele hesitou por um instante, mas então me apertou num abraço também.
"Pedro... pelo amor de deus, a gente precisa dar um jeito nisso... eu nao vivo sem você, cara..."
Nesse mesmo instante eu percebi que ele começou a chorar também. E me soltou. Deu um passo pra trás e disse, sem conseguir olhar nos meus olhos:
- Meu pai vai me mandar... eu vou estudar no Canadá, Patrick...
Levei alguns segundos pra entender o que ele estava dizendo. Ele continuou explicando, mas parecia outra pessoa falando, e não ele. O olhava pra ele, mas talvez por causa das lágrimas que embaçavam minha vista, os sons que saíam da boca dele não pareciam coincidir com as palavras que ele falava. Consegui entender algumas coisas, mas foi o suficiente pra compreender, numa dor excruciante, que dali a menos de um mês ele ia viajar pra fora do país e ficar lá por seis meses, a milhares de quilômetros de mim.
-
criado por Soubi
14:18:27