03.04.07
XXXIII_Um_novo_dia_parte_II
*continuação do post anterior
Enquanto eu tomava banho, fiquei pensando se aquilo seria uma boa idéia. Ir a uma festa onde estariam justamente o povo do colégio que não gostava de mim. Bem, eles não gostavam de muita gente, é verdade, mas eu me incluía nesse grupo privilegiado. Eu provavelmente seria harassed, importunado, zoado, “melindrado”. Mas... saber? Que se fodesse. Eu ia e acabou. Quem quisesse se sentir incomodado com isso, nossa, eu não ia dormir ontem de tanto lamentar. E às nove e pouco a tal da Marília me ligou, combinando de me pegar em casa mesmo. O irmão da Luísa tinha uma cara de quem estava profundamente irritado por ter de servir de motorista à irmã e aos amigos pivetes. Ele devia ter uns vinte e poucos anos, e era bem bonito. Nem olhou pra minha cara direito, simplesmente acelerou depois de eu entrar no carro.
A chácara do tal Luis Guilherme era um pouco longe da cidade, quer dizer, da parte habitada da cidade. Ficava perto de uma das usinas de cana, e quando chegamos já havia bastante gente lá. Muitas caras conhecidas, do colégio, e algumas que eu nunca havia visto antes, provavelmente de outras escolas. A Marília estava dizendo que haviam sido vendidos mais de trezentos convites para a festa. Um guri imbecil de 16 anos fazendo festa para 300 pessoas. Um promoter com futuro promissor, sem dúvida e quase sem ironia.
O pior de tudo é que eu não poderia falar mal da festa. Ela estava realmente boa. Música legal, iluminação da hora... refrigerante à vontade, e, é claro, alguém deu um jeito de contrabandear bebida pra dentro da chácara. E, por algum motivo, desconfio que tivesse sido o próprio dono da festa, pois era a TTH – Turma do Túlio Henrique – que estava enchendo a cara. Aliás, falando em Túlio Henrique... já passava das dez da noite quando, pelo jeito, ele não se controlou mais. Eu já havia percebido que ele estava olhando para mim desde que eu chegara. Com certeza fez algum comentário com os amigos, pois eles também olharam pra mim e riram. Mas, até então, era só isso. E, sendo ele quem era, não perderia a oportunidade, é claro. Eu tomava Coca-cola quando ele chegou perto de mim com quatro dos seus “capangas”.
- Olha só quem já esqueceu o “amigo”... -, disse ele, enfatizando muito o “amigo”.
Eu fingi que não ouvi e dei as costas pra eles, indo pra outro canto da chácara. Então ouvi atrás de mim:
- Faz bem em ir pra festas, porque o meu irmãozinho querido está se divertindo pacas lá no Canadá. Sabe como é, ele sempre foi o mais... insensível.
Eu não ia dar trela, não podia. Era justamente o que ele vinha querendo desde que eu me mudei para o COC, e, mais que isso, depois que eu me tornei o melhor amigo do irmão dele. Um motivo para juntar um bando e me bater. Seria muita burrice aceitar a provocação, por mais que eu quisesse. Continuei andando e não olhei para trás, apesar de eles continuarem me azucrinando, aos berros.
“O meu irmãozinho querido está se divertindo pacas lá no Canadá”... aquilo não devia me afetar, afinal eu já havia esquecido o Pedro. Então... por que, mesmo eu sabendo que o Túlio provavelmente só dissera aquilo para me provocar, doía tanto? Por que eu ficava pensando nele, numa festa como aquela, só que cheia de canadenses gatinhos que estavam fazendo fila pra “experimentar” o meu namorado. EX-namorado... Droga...
Vejam como são as coisas, como parece que elas acontecem de propósito, e não por acaso. Eu havia acabado de me sentar num banco sob uma árvore, um pouco longe de onde a festa rolava mesmo, quando ouvi umas vozes. Olhei para os lados e vi três garotos mais velhos, deviam ter dezoito ou dezenove anos. Estavam bebendo e fumando. Escondido. Então eles perceberam que eu estava ali, e um deles disse, meio bêbado:
- Ei, quem é você?
“Ninguém, cara, já to voltando pra festa. Foi mal atrapalhar aí”, eu respondi, já levantando do banco. Então, surpreendentemente, a mesma voz disse:
- Não, chega mais aí.
Eu hesitei um pouco, e ele insistiu:
- Chega aí, mano. De boa.
Quando me aproximei o suficiente pra poder distinguir os rostos e, principalmente, o que havia nas mãos deles, o mesmo ara disse:
- Beleza cara? Senta aí. Dá um copo pro moleque aí, Bola. Saca só, eu sou o Nada, esse com os copos é o Bola e esse malacabado aqui é o Digão. Galera gente boa.
É, eu podia notar. Estavam os três quase bêbados, com duas garrafas de vodka quase secas, e uns maços de cigarros, todos abertos, no chão. O tal do “Nada” (tirando o “Nada”, de quem eu me lembro muito bem, os apelidos dos outros dois eu inventei, porque também não me lembro) pegou um copo vazio da mão do Bola, encheu até a metade com vodka e me entregou. Eu fiquei um tempo olhando pro copo. Meu, quem é que toma vodka pura e quente? Nem russo faz isso!
- Vai, mano, bebe aí. É vodka boa!
Acho que aquele foi um momento decisivo no que seria minha vida nas semanas seguintes. Eu poderia ter largado o copo ali e ido embora, mas, por um desses motivos que a gente nunca chega a descobrir de verdade, eu virei a porcaria, e achei que minha garganta fosse derreter. Meu Deus, como aquilo era ruim! Senti o estômago embrulhar na hora, e mal ouvi os três “me cumprimentando” por ter virado meio copo de vodka. Claro que o Nada tornou a pôr mais bebida no copo que eu acabara de esvaziar.
Eu me lembro que até cheguei a pensar que não havia motivo pra eu fazer aquilo, mas não me censurei muito. Antes de começar a beber o segundo copo, eu estava com um cigarro aceso na mão. E, sob os aplausos dos meus três “novos amigos”, o fumei inteiro antes de terminar de beber a vodka.
O que aconteceu depois de eu beber o segundo copo de vodka não ficou muito bem gravado na minha cabeça, por motivos óbvios. Me lembro de coisas esparsas, flashes, momentos. Lembro que eu saí da festa de carro com os três. Lembro que mandei uma mensagem no celular da Marília, dizendo que estava indo embora com uns amigos. Lembro que fumei e bebi mais, mas não lembro o quanto. De pelo menos um cavalo-de-pau na avenida Francisco Junqueira, perto do Corpo de Bombeiros. E, apesar de depois ter querido desesperadamente esquecer, lembro da cara da Dona Norma (que me esperava aflita na cozinha), de decepção, quando eu cheguei em casa, com o dia clareando, bêbado e cheirando a cigarro.
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criado por Soubi
13:10:27