Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!

Memórias de um puto não-virgem

E aí??? Eu sou o Patrick, 17 anos, interior de São Paulo. Sou bissexual e resolvi escrever este blog pra gravar em algum lugar as coisas que têm me atormentado, pensamentos, dúvidas, indecisões, decisões, minhas primeiras experiências! Até mais!
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Terra Blog

14.04.07

XXXIV___O_poço_tem_fundo?__pt_I

*Ouvindo: Lifehouse's "Chapter One”.
*
“All the leaves are turning and the sky fades to gray
Strange our life coincides with the seasons of today
Who's to say where the wind will blow
What happens when everything is lying on the ground
Do you pick up the pieces all around
And if the world should fall apart hold on to what you know
Take your chances turn around and go
Carry on you say
Bring the best of today
All I see is struggling on the way”.
*
*
*
Vocês já tiveram a sensação de estarem numa daquelas cenas de desenho animado em que aparecem um diabinho e um anjinho, um de cada lado da sua cabeça, falando coisas diferentes no seu ouvido? Dando conselhos absolutamente opostos? Pois é. Foi assim que eu me senti nas semanas seguintes ao vexame com a dona Norma. Que vergonha, deus.
*
Eu cheguei em casa cedo naquele dia em que saí da festa com os caras mais velhos. Cedo mesmo: passava das cinco e meia da manhã. A dona Norma estava na cozinha, e correu abrir a porta que dá pra área de serviço quando ouviu o portão se abrindo. Quando eu cheguei perto o suficiente pra ela me encarar, ela disparou, afobada:
- Meu Deus garoto! Aonde você tava??? Eu aqui morrendo de preocupação, liguei no seu celular não-sei-quantas-mil vezes!!! Patrick! Que cheiro é esse?? – ela perguntou, quase me chacoalhando.
“Não é nada... vô pro quarto...”
*
Eu estava bêbado. Bastante bêbado. Mas ainda andava (bastante torto, é verdade) e até conseguia entender boa parte do que ela falava. Mas sabem quando você pensa as palavras mais rápido do que pode dizê-las? Então. E olhem que eu estava pensando bem lentamente, o que significa que a dona Norma ficou muito assustada. Eu tenho certeza de que entendi o que ela disse porque, depois de acordar, naquela tarde, com um cheiro horrível de álcool no quarto, eu me lembrei de tudo o que ela disse. Mas acho que na hora em que ela disse eu não tinha condições de responder nada. E ela deve ter percebido isso, porque me levou à força pro meu quarto – e digo à força não porque eu estivesse voluntariamente resistindo, eu queria ir pra lá, só que não conseguia sozinho, principalmente devido aos móveis que pareciam se jogar no meio do caminho. Ela me sentou na cama e foi pro banheiro, e, segundos depois, fui arrastado para o chuveiro. A dona Norma arrancou minha roupa, me deixando só de cuecas, e me tacou debaixo d’água fria. Santo deus, que sensação horrível! Parecia que eu estava acordando, aterrorizado, de um pesadelo alucinante. Principalmente porque eu tenho um problema com muita água caindo sobre a minha cabeça. Não consigo ficar debaixo de cachoeiras, por exemplo. Me dá falta de ar, desespero, enfim, eu geralmente fico com a cabeça abaixada enquanto tomo banho, deixando a água cair no pescoço, não sobre a cabeça. Então, com a água gelada, ainda por cima, pareceu que eu estava levando um choque. Tentei desligar o chuveiro, mas a dona Norma não deixou. Ficou segurando meus braços, enquanto falava coisas como “onde já se viu!”, “não é nenhuma criança”, “me mata de preocupação”, “sem juízo algum!”. Confesso que, na hora, eu não estava ligando muito. Mas...
*
*
Quando abri os olhos, eles demoraram pra entrar em foco. Vi tudo quadruplicado, triplicado, duplicado, e enfim tudo se acertou. Minha boca estava sequíssima, como se eu tivesse comido um saco de areia. Não que eu já tenha comido um saco de areia, mas imagino que a sensação deva ser parecida. Olhei pro relógio: quatro e meia da tarde, o que significava que eu tinha dormido por quase doze horas. O cheiro de álcool no quarto era absurdamente insuportável. A janela estava fechada, fazia um calor horrível. Eu me levantei rapidamente, e caí sentado na cama porque me deu tontura. Até que fazia sentido, já que há muito tempo que eu não comia nada. Em vez de tentar me levantar novamente, fiquei lá, com a cabeça apoiada nas mãos, e os cotovelos apoiados nos joelhos, tentando me lembrar do máximo possível. E o pior é que eu consegui.
*
Enquanto falava algumas frases aparentemente sem muita conexão umas com as outras, a dona Norma quase chorava. E, de uma maneira um pouco egoísta, eu desejei que fosse de preocupação, e não de decepção, porque decepcioná-la seria devastador pra mim. Logo ela, que já tinha me dado tanto apoio... deus do céu, ela me ajudou a enganar os pais do Pedro, pra que ele pudesse viajar comigo... ela até foi conosco, porque senão não poderíamos ir... isso sem falar na maneira como ela criticou a filha, me defendendo, e defendendo o que eu sentia pelo Pedro... e era assim que eu retribuía. Não que eu achasse que ela esperava alguma coisa em troca do que ela havia feito por mim a vida inteira, porque as mães nunca esperam nada em troca... mas esse era um consolo muito fraco, e eu continuava sem coragem de sair do quarto e arriscar encará-la.
*
Por fim me levantei e abri a janela, tirei a roupa de cama e coloquei lençóis limpos, e fui escovar os dentes – três vezes seguidas. Liguei o aparelho de som e coloquei um cd da Enya e deixei lá, tocando bem baixinho. Sentado na cadeira do computador, continuava buscando coragem pra sair do quarto. Mas não foi preciso. Em alguns minutos ela bateu na porta, três vezes, antes de eu conseguir dizer:
“Entre”.
- Boa tarde. Tá melhor?
Eu não sabia se ela estava me olhando ou não, porque não tive coragem de encará-la. Só balancei a cabeça afirmativamente. Ela continuou:
- Trouxe um lanche pra você. Come senão desmaia de fraqueza.
Balancei a cabeça de novo e ela colocou a bandeja sobre o baú que ficava no pé da cama. Antes de sair do quarto, ela disse:
- Isso acontece com todo mundo, Patrick. Só que a gente fica numa preocupação danada! Tem que tomar cuidado pra não fazer mal pra você mesmo. E essas coisas fazem mal. Não to dizendo que não é pra você se divertir, só pra ter cuidado e a cabeça no lugar – e saiu, fazendo com que eu me sentisse pior ainda.
*
Naquele dia, e no dia seguinte, a dona Norma fez de tudo pra eu achar que estava tudo bem, mas eu percebi que não estava. Ela estava preocupada. Aquela situação nunca tinha existido entre a gente. Depois de ela ter me defendido, quando a Evelyn me viu com o Pedro no meu quarto, aquela foi a segunda vez em que agiu como uma genuína mãe, protetora, enfim, mãe. E logo na segunda vez, eu agia como um filho-problema. Deus, eu nunca fora um filho-problema pros imbecis dos meus pais, que certamente mereceriam todo tipo de problemas com o filho, mas fui ser um problema logo com a dona Norma. A única pessoa que se importava comigo...
*
E então voltamos ao começo do post. O diabinho e o anjinho. Eu tinha certeza que havia dado mancada. Sabia disso, e estava genuinamente arrependido de ter preocupado a dona Norma. Mas... por outro lado, não me arrependia do que tinha feito, por algum motivo. Quero dizer, não me arrependia de ter enchido a cara, de ter fumado, de ter saído de carro com caras mais velhos e completamente irresponsáveis. Meu remorso se resumia no que eu fiz à dona Norma, mas se ela não tivesse me visto chegar, se eu tivesse chegado bem, então... não haveria remorso algum. Por algum motivo.
  • criado por  Soubi criado por Soubi
  • Postado em 17:36:50
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