14.04.07
XXXIV___O_poço_tem_fundo?__pt_II
*continuação do post anterior
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Ainda que não me arrependesse de ter enchido a cara, como eu lamentava profundamente ter preocupado e decepcionado a dona Norma, eu decidi dar um tempo. Pelo jeito eu havia passado o numero do meu celular para o “Nada”, porque, dois dias depois do vexame, ele me ligou, me chamando pra sair de novo com eles. Mas, como eu estava resolvido a não repetir o que havia acontecido, disse que não ia poder, dei uma desculpa qualquer. Mas anotei o celular dele na agenda do meu.
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Em vez disso, fui tentar arrumar o que fazer pra me distrair. Joguei uns jogos no vídeo-game, escutei música, reli alguns trechos dos livros que eu mais gostava... e, é óbvio, aquilo logo se tornou chatíssimo. Joguei tudo – livros, controle do vídeo-game e do aparelho de som – do lado da cama, fechei a janela do quarto e enfiei a cara no travesseiro. Eu sabia muito bem o que eu queria... do que estava sentindo falta...
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Por mais que eu tentasse desesperadamente, não conseguia me acostumar à falta dos braços do Pedro em volta de mim... de sentir a respiração dele no meu ouvido, quando dormíamos agarrados ali mesmo, naquela cama... era tão desesperador abrir o MSN e saber que ele não ficaria online, dava tanta angústia olhar pra piscina e ter a sensação de que faltava nela aquele garoto lindo, com aquele sorriso brilhante, chacoalhando os cabelos pra jogar água no meu rosto... ou então entrar no banheiro e ver só uma toalha pendurada, e o lugar da toalha que ele usava, vazio... a escova de dentes dele, na qual eu não tive coragem de tocar desde que ele fora embora, ali na prateleira do armário, sobre a pia... quando eu me dei conta, já estava chorando compulsivamente de novo. Aquela dor indescritível que dilacera o peito, que parece espantar qualquer pensamento feliz... tudo voltava, as lembranças de nós dois juntos, o sorriso dele, o cheiro dele, o beijo dele... quanto mais eu tentava afastar aquelas lembranças, com mais força elas me invadiam e me machucavam. “Tu foste pra mim, meu amor, como um dia de sol”, dizia a música que ele me mandara... eu já não sabia o que era o sol há algum tempo. E aquilo doía demais.
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Doía tanto que eu já estava com raiva de mim mesmo por não estar conseguindo esquecê-lo de vez. Ele deixara bem claro “como foi lindo o que morreu”. Morreu. Ele não sentia mais nada por mim, se ele tinha conseguido me esquecer assim com tanta facilidade... por que eu não poderia? É, estava mais do que na hora de eu partir pra outra, dar um rumo na vida... eu ficava dizendo pra mim mesmo que o Pedro não apenas estava longe, muito longe, mas também que ele não me amava mais. E, se ele não sentia mais nada por mim, não haveria um único motivo pra eu ficar chorando por ele. E foi assim que eu tive uma idéia da qual eu ia, depois, me arrepender muito, mas muito mesmo.
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Levantei da cama esfregando o nariz, liguei o computador e entrei no site do Bate-papo do UOL. Não demorou muito pra eu descobrir as salas de Ribeirão. Eu nunca havia entrado nelas, sempre que entrava no bate-papo – o que significa “quase nunca” – era nas salas “por idade”. Mas quando entrei numa das salas de Ribeirão, com o meu nome de nickname mesmo, não demorou nada pra duas ou três pessoas saltarem na tela, perguntando “quer tc?”, ou “e ai, blz? Afim de tc???”. E duas delas tinham nick de homens. Eu saí imediatamente da sala, nervoso. Nossa, eu estava realmente fazendo aquilo. Tentando conhecer alguém pela Internet. Eu tinha idéia das complicações que isso pode trazer, mas... troquei o apelido, inventando um nome qualquer, e voltei a entrar na mesma sala. Claro que novamente pessoas vieram falar comigo. Mas dessa vez eu respondi.
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Era muito estranho. Eu nunca havia feito aquilo antes, quero dizer, entrar na Internet para conversar com outros garotos para... bem, para buscar alguém pra conhecer. Eu só entrava pra bater papo mesmo, jogar conversa fora com pessoas desconhecidas, mas nunca passava disso. Mas naquele dia foi diferente. Eram garotos que, como eu, gostavam de garotos. Morávamos na mesma cidade. Meu deus, e se eu encontrasse alguém do meu colégio ali??? Ao pensar nisso, eu quase desisti de novo. Mas, quando ia clicar no botão pra sair da sala, apareceu uma mensagem de um cara com o nick de "cara_legal", ou "maneiro", algo assim. Perguntando se eu estava ocupado. Eu larguei o mouse e digitei: “não to não...”.
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E assim nós começamos a conversar. Ele tinha um papo legal, e morava longe da minha casa, o que era um bom sinal. Mas a conversa foi avançando, ele perguntando o que eu procurava na net, eu dizendo que não sabia ainda, que nunca tinha conhecido ninguém da net, e tal. Então ele perguntou a minha idade e, quando eu disse que tinha 15 anos, ele saiu da sala. Eu fiquei lá, com cara de besta, olhando pro monitor. Supus que ele fosse bem mais velho, pra simplesmente fugir da sala quando eu disse que tinha 15 anos. Então eu também saí da sala e entrei em outra, mudando o nick de novo, mas dessa vez colocando nele: “15a" na frente do nome, assim pelo menos quem viesse conversar comigo já saberia. Então, assim que entrei na sala, vi um nick interessante: “garoto carente”. Cliquei nele e perguntei se ele queria conversar, e ele disse que sim. E foi por causa desse “sim” que tudo aconteceu...
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criado por Soubi
17:42:26